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O erro mais comum que encontro em RGPD nas PME portuguesas

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16 de Janeiro, 2026

Ao longo dos últimos anos, em auditorias, diagnósticos e conversas informais com gestores de PME portuguesas, há um padrão que se repete com uma consistência impressionante. Independentemente do sector — indústria, serviços, comércio, associações ou IPSS — o erro é quase sempre o mesmo.

E não, não é a ausência de um DPO.
Nem a falta de um software milagroso.
Nem sequer a inexistência de políticas escritas.

O erro mais comum é confundir RGPD com documentação, em vez de o tratar como um sistema vivo de gestão do risco sobre dados pessoais.

RGPD visto como “papel para mostrar”

Muitas PME abordam o RGPD como uma obrigação administrativa:

“É preciso ter isto para o caso de uma fiscalização.”

O resultado é previsível:

  • Um conjunto de políticas copiadas da internet
  • Um registo de atividades genérico e desatualizado
  • Um consentimento mal aplicado (ou aplicado a tudo)
  • Um falso sentimento de segurança

Na prática, o RGPD fica numa pasta, enquanto os dados pessoais continuam a circular:

  • por e-mail sem controlo,
  • em folhas Excel partilhadas,
  • em backups sem encriptação,
  • em acessos sem perfis nem registo,
  • e em sistemas onde ninguém sabe bem quem vê o quê.

O papel está lá. A conformidade real, não.

O erro de fundo: não perceber o que o RGPD realmente protege

O RGPD não foi criado para proteger empresas.

Foi criado para proteger pessoas.

Quando uma PME não faz esta mudança de perspectiva, tudo fica enviesado. Pergunta-se — “O que é que a lei exige que eu tenha?”

Quando a pergunta certa seria — “Onde é que posso estar a causar dano a uma pessoa através do uso (ou mau uso) dos seus dados?”

Sem esta inversão, surgem erros clássicos:

  • Consentimentos pedidos sem necessidade (e depois impossíveis de gerir)
  • Direitos dos titulares tratados como “chatices”
  • Incidentes de segurança não reconhecidos como violações
  • Funcionários sem qualquer noção prática de proteção de dados

RGPD não é um projeto. É um processo.

Outro equívoco frequente é encarar o RGPD como algo que se “implementa” e fica feito.

Na realidade:

  • Pessoas entram e saem da empresa
  • Sistemas mudam
  • Processos evoluem
  • Fornecedores são substituídos
  • Novos dados começam a ser recolhidos

Uma PME que não revê regularmente:

  • os fluxos de dados,
  • os acessos,
  • as finalidades,
  • os prazos de retenção,

está, mesmo sem saber, a criar não conformidades novas todos os meses.

E nenhuma política em PDF resolve isso.

O que fazem as PME que fazem bem

Curiosamente, as PME que estão mais confortáveis com o RGPD não são as que têm mais documentos. São as que:

  • sabem onde estão os dados pessoais
  • sabem quem lhes acede e porquê
  • conseguem responder rapidamente a um pedido de um titular
  • reconhecem um incidente quando ele acontece
  • e têm uma cultura mínima de cuidado e responsabilidade

Não é perfeição. É consciência.

A conclusão incómoda

O maior risco RGPD nas PME portuguesas não é a multa.

  • É a ilusão de conformidade;
  • Ter documentos não significa estar conforme;
  • Estar conforme significa controlar, compreender e reduzir riscos reais sobre dados pessoais;
  • Tudo o resto é teatro administrativo — e o regulador já aprendeu a distinguir bem uma coisa da outra.